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Gravidez na
Adolescência
•
Adolescente
"Ser
adolescente é pertencer a uma raça muito especial"
já dizia Ana Freud em meados do século. É normal
para o adolescente se comportar de maneira inconsciente e não previsível.
Lutar contra seus impulsos e aceitá-los, amar seus pais e odiá-los,
ter vergonha de reconhecê-los perante outros e não querer
conversar com eles.
Identificar-se
e imitar os outros enquanto procura identidade própria. O adolescente
é idealista, artístico, generoso, pouco egoísta e
também exatamente o oposto: egoísta, calculista e auto-concentrado
Segundo
os critérios da Organização Mundial de Saúde
(OMS), a adolescência é um período de mudanças
fisiológicas, psicológicas e sociais que separam a criança
do adulto, prolongando-se dos 10 aos 20 anos incompletos, ou dos 12 aos
18 anos de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente do
Brasil (ECA)
• Motivos da gravidez na Adolescência
Muito
mais do que a falta de informação, a gravidez na adolescência
está ligada às características próprias dessa
fase da vida. A onipotência do "comigo não acontece"
a impetuosidade do "se der errado, depois agente vê",
a busca de identidade no "se eles acham que isso é certo,
eu faço o contrário", a energia de "vamos ver
o sol nascer depois a gente vai direto para aula"...Junte a estas
atitudes o pouco ou nenhum diálogo com a família, além
da angústia do conflito entre o desejo e as conseqüências,
para que a gravidez aconteça. Depois o argumento mais ouvido é:
"não pensei que fosse engravidar".
A
puberdade, que marca o início da vida reprodutiva da mulher, é
caracterizada pelas mudanças fisiológicas corporais e psicológicas
da adolescência. Uma gravidez na adolescência provocaria mudanças
maiores ainda na transformação que já vinha ocorrendo
de forma natural. Neste caso, muitas vezes a adolescente precisaria de
um importante apoio do mundo adulto para saber lidar com esta nova situação.
“Porque
a adolescente fica grávida é uma questão muito incômoda
aos pesquisadores”. São boas as palavras de Vitalle &
Amâncio (idem), segundo as quais a utilização de métodos
anticoncepcionais não ocorre de modo eficaz na adolescência,
inclusive devido a fatores psicológicos inerentes ao período
da adolescência. A adolescente nega a possibilidade de engravidar
e essa negação é tanto maior quanto menor a faixa
etária.
A
atividade sexual da adolescente é, geralmente, eventual, justificando
para muitas a falta de uso rotineiro de anticoncepcionais. A grande maioria
delas também não assume diante da família a sua sexualidade,
nem a posse do anticoncepcional, que denuncia uma vida sexual ativa. Assim
sendo, além da falta ou má utilização de meios
anticoncepcionais, a gravidez e o risco de engravidar na adolescente podem
estar associados a uma menor auto-estima, à um funcionamento familiar
inadequado, à grande permissividade falsamente apregoada como desejável
à uma família moderna ou à baixa qualidade de seu
tempo livre. De qualquer forma, o que parece ser quase consensual entre
os pesquisadores, é que as facilidades de acesso à informação
sexual não tem garantido maior proteção contra doenças
sexualmente transmissíveis e nem contra a gravidez nas adolescentes.
• Conseqüências da gravidez na
adolescência
A
gravidez na adolescência envolve muito mais do que problemas físicos,
pois há também problemas emocionais, sociais, entre outros.
Uma
vez constatada a gravidez, se a família da adolescente for capaz
de acolher o novo fato com harmonia, respeito e colaboração,
esta gravidez tem maior probabilidade de ser levada a termo normalmente
e sem grandes transtornos. Porém, havendo rejeição,
conflitos traumáticos de relacionamento, punições
atrozes e incompreensão, a adolescente poderá sentir-se
profundamente só nesta experiência difícil e desconhecida,
poderá correr o risco de procurar abortar, sair de casa, submeter-se
a toda sorte de atitudes que, acredita, “resolverão”
seu problema.O bem-estar afetivo da adolescente grávida é
muito importante para si própria, para o desenvolvimento da gravidez
e para a vida do bebê. A adolescente grávida, principalmente
a solteira e não planejada, precisa encarar sua gravidez a partir
do valor da vida que nela habita, precisa sentir segurança e apoio
necessários para seu conforto afetivo, precisa dispor bastante
de um diálogo esclarecedor e, finalmente, da presença constante
de amor e solidariedade que a ajude nos altos e baixos emocionais, comuns
na gravidez, até o nascimento de seu bebê.
Mesmo
diante de casamentos ocorridos na adolescência de forma planejada
e com gravidez também planejada, por mais preparado que esteja
o casal, a adolescente não deixará de enfrentar a somatória
das mudanças físicas e psíquicas decorrentes da gravidez
e da adolescência.
A
gravidez na adolescência é, portanto, um problema que deve
ser levado muito a sério e não deve ser subestimado, assim
como deve ser levado a sério o próprio processo do parto.
Este pode ser dificultado por problemas anatômicos e comuns da adolescente,
tais como o tamanho e conformidade da pelve, a elasticidade dos músculos
uterinos, os temores, desinformação e fantasias da mãe
ex-criança, além dos importantíssimos elementos psicológicos
e afetivos possivelmente presentes.
• Possíveis Problemas emocionais
Para
se ter idéia das intercorrências emocionais na gravidez de
adolescentes, em trabalho apresentado no III Fórum de Psiquiatria
do Interior Paulista, em 2000, Gislaine Freitas e Neury Botega mostraram
que, do total de adolescentes grávidas estudadas na Secretaria
Municipal de Saúde de Piracicaba, foram encontrados: casos de Ansiedade
em 21% delas, assim como 23% de Depressão. Ansiedade junto com
Depressão esteve presente em 10%.
Importantíssima
foi a incidência observada para a ocorrência de ideação
suicida, presente 16% dos casos, mas, não encontraram diferenças
nas prevalências de depressão, ansiedade e ideação
suicida entre os diversos trimestres da gravidez. Tentativa de suicídio
ocorreu em 13% e a severidade da ideação suicida associação
significativa com a severidade depressão.
Procurando conhecer algumas outras características da população
de adolescentes grávidas como estado civil, escolaridade, ocupação,
menarca, atividades sexuais, tipo de parto, número de gestações
e realização de pré-natal, Maria Joana Siqueira refere
alguns números interessantes.
• Números interessantes da Gravidez
na Adolescência
Porcentagem
de grávidas entre 16 e 17 anos 84%
Primigestas
(primeira gestação) 75%
Freqüentaram
o pré-natal 95%
Tiveram
parto normal 68%
Menarca
(1a. menstruação) entre os 11 e 12 anos 52%
Não
utilizavam nenhum método contraceptivo 56%
Usavam
camisinha às vezes 28%
Utilizavam
a pílula 16%
• A primeira relação sexual
ocorreu (referência*):
até
os 13 anos 10%
entre
14 e 16 anos 27%
entre
17 e 18 anos 18%
entre
19 e 25 anos 17%
depois
dos 25 anos 2%
• Ideação Suicida em Adolescentes
Grávidas
Gisleine
Vaz Scavacini de Freitas e Neury José Botega (Unicamp) têm
um estudo sobre ideação de suicídio em adolescentes
grávidas. Estudaram 120 adolescentes grávidas (40 de cada
trimestre gestacional), com idades variando entre 14 e 18 anos, atendidas
em serviço de pré-natal da Secretaria Municipal de Saúde
de Piracicaba.
Do
total dos sujeitos, foram encontrados: casos de ansiedade em 25 (21 %);
casos de depressão em 28 (23%). Desses, 12 (10%) tinham ansiedade
e depressão. Ideação suicida ocorreu em 19 (16%)
das pacientes. Não foram encontradas diferenças nas prevalências
de depressão, ansiedade e ideação suicida nos diversos
trimestres da gravidez.
As
tentativas de suicídio anteriores ocorram em 13% das adolescentes
grávidas. A severidade dessas tentativas de suicídio teve
associação significativa com o grau da depressão,
bem como com o estado civil da pacientes (solteira sem namorado).
Em 2000, segundo Raquel Foresti, foram realizados 689 mil partos de adolescentes
no Brasil, o equivalente a 30% do total dos partos do país. Hoje
são mais de 700 mil partos de adolescentes por ano. O número
é um golpe contra as várias iniciativas voltadas para a
prevenção da gravidez na adolescência.
• Risco na gravidez adolescente
O
que tem preocupado obstetras em geral, é a possibilidade da gravidez
na adolescência ser considerada "de risco", com conseqüentes
complicações por ocasião do parto. Segundo Marco
Aurélio Galletta e Marcelo Zugaib, a gravidez será considerada
de risco quando a gestante ou o feto estão sujeitos a lesões
ou mesmo morte, em decorrência da gravidez ou puerpério (após
o parto).
Segundo esses autores, a mortalidade materna e peri-natal é maior
na gravidez na adolescência. No Brasil, grande parte das mortes
na adolescência estão relacionadas à complicações
da gravidez, parto e puerpério. As complicações mais
freqüentes da gravidez e parto na adolescência são:
1-
toxemia gravídica, que é uma doença hipertensiva
da gravidez com fortes possibilidades de convulsões;
2
- maior índice de cesarianas;
3
- desproporção céfalo-pélvica, que é
uma desproporção entre o tamanho da cabeça do feto
e a pelve da mãe;
4
- síndromes hemorrágicas, chamada de coagulação
vascular disseminada;
5
- lacerações perineais, envolvendo vagina e, às vezes
do ânus;
6
- amniorrexe prematura, que é ruptura precoce da bolsa e;
7
- prematuridade fetal.
Outros
ainda adicionam: anemia materna, trabalho de parto prolongado, infecções
urogenitais, abortamento, apresentações anômalas,
baixo peso da criança ao nascer, malformações fetais,
asfixia peri-natal e icterícia neonatal.
• Aspectos psicossociais
Inegavelmente
a gravidez precoce e/ou indesejada leva à algum prejuízo
no projeto de vida e, por vezes, na própria vida. Há, concomitantemente,
possíveis outros riscos relacionados ao aborto e à doenças
sexualmente transmissíveis entre as quais AIDS.
As taxas de gravidez e infecções sexualmente transmissíveis
na adolescência são indicativos da freqüência
com que a atividade sexual (desprotegida) ocorre nessa faixa etária.
Talvez possam ser considerados aspectos sociais (talvez, bio-psíco-sociais)
alguns fatores de risco para gravidez na adolescência:
1.
antecipação da menarca
2.
educação sexual ausente ou inadequada
3.
atividade sexual precoce
4.
desejo de gravidez
5.
dificuldade para práticas anticoncepcionais
6.
problemas psicológicos e emocionais
7.
mudanças dos valores sociais
8.
migração mal sucedida
9.
pobreza (?)
10.
baixa escolaridade
11.
ausência de projeto de vida
• Métodos Anticoncepcionais
Cada
método tem suas vantagens e desvantagens. A pílula é
o mais eficaz dos contraceptivos, mas seu uso deve ser acompanhado por
um ginecologista. O preservativo (camisinha) é mais barato, mas
não é garantido: pode romper-se no momento da relação.
A maior vantagem é que a camisinha protege contra doenças
sexualmente transmissíveis, como Aids.
O
DIU (Dispositivo Intra-Uterino) é o dispositivo mais eficaz, depois
da pílula, mas alguns médicos não o recomendam para
mulheres que nunca tiveram filhos. O diafragma é seguro, se usado
corretamente, e vem acompanhado de um gel espermicida que funciona como
lubrificante. Por fim, existe a tabelinha, um método natural mas
cheio de falhas, principalmente se a garota tiver um ciclo menstrual irregular.
Neste caso, recomenda-se o uso conjugado com outro método como
a camisinha.
• O parto
Apesar
de que no Brasil a maioria das mães adolescentes em grandes cidades
acabam por receber atendimento pré-natal, um grande número
de partos (na faixa de 20%) são considerados como de alto risco,
pelo fato do corpo das adolescentes não se encontrar adequadamente
preparado para a maternidade.
Mas,
de qualquer modo, os bebês se encontram, ao nascer (em sua maioria)
dentro da faixa de normalidade de peso e estatura, sendo o nascimento
ocorrido a termo, ou seja, após o período de gestação
ter sido completado.
• As Emoções da Futura Mãe
De
modo geral não se pode dizer que as depressões previamente
presentes piorem a gravidez, obrigatoriamente, pois se observa exatamente
o contrário na prática clínica, algumas mulheres
apresentam uma melhora da sintomatologia depressiva quando se encontram
grávidas. Também não é possível tentar
estabelecer alguma regra geral, segundo a qual a gravidez de adolescentes
predispõe ao estado depressivo. E a base destas alterações
do humor para melhor, quando ocorrem, parece estar relacionada à
alguma alteração hormonal. Sendo a progesterona é
a hormônio dominante da gravidez, pode ser possível que exista
algum benefício se estas mulheres, que melhoram da depressão
durante a gravidez, continuem a tomar progesterona, fora da gravidez.
Se existe algum período da gravidez onde possa ser observada uma
melhor performance emocional, essa época é entre a 17a.
e 20a. semanas de gestação. Isso parece estar relacionado
à produção hormonal pela placenta. Nessa fase da
gravidez, o sistema endócrino da mulher trabalha ativamente para
promover o crescimento uterino e do bebê. No entanto, passado algum
tempo, a placenta torna-se a principal responsável pela produção
hormonal. Este fato explica, em parte e como vimos acima, as sensações
de melhora física, pois, a produção placentária
não tem tantos efeitos secundários quanto a produção
endócrina.
Mesmo assim, as reações emotivas da grávida tornam-se
mais intensas e muitas delas ficam surpreendidas com sua labilidade emocional,
onde até um simples anúncio televisivo pode fazê-las
chorar. Além desses determinantes biológicos e hormonais,
a grávida adolescente teria ainda razões de ordem existencial
para alimentar a extrema labilidade afetiva.
Normalmente,
as pessoas costumam não acreditar serem suficientemente boas, suficientemente
organizadas, suficientemente ricas ou suficientemente suportadas. As inseguranças,
nessas questões de auto-estima, são normais e fisiológicas.
Da mesma forma, muitas mulheres não acreditam que serão
capazes de ser boas mães. Em algumas adolescente grávida,
o infantilismo fisiológico próprio da faixa etária
e prontamente substituído por esse complexo de mãe incompetente.
O
trabalho de parto é receado por muitas adolescentes, sobretudo
porque é amplamente desconhecido. A melhor forma de ultrapassar
o medo é falar abertamente sobre o assunto. A partilha de idéias
com outras mulheres que sentem o mesmo pode ser uma ajuda preciosa.
Durante
a gravidez, a mulher pode sentir dificuldades na concentração
ou na articulação de vocábulos simples. O esquecimento
passa também a ser freqüente. Estes fenômenos podem
ser alarmantes, sobretudo para as mulheres que não estão
prevenidas. No entanto, todas estas alterações regridem
com o parto.
Geralmente
a adolescente grávida passa a ser rodeada de conselhos, críticas,
sugestões e advertências. Todos parecem ter algo a dizer;
alguns amigos querem contribuir para o crescimento do filho, professores
e parentes procedem com críticas amargas e dissimuladas, familiares
mais próximos com veementes censuras... e assim por diante.
Embora
possa ser agradável receber alguma atenção, muitas
vezes pode ser perturbador. A emotividade subjacente a este período,
torna a mulher hipersensível a algumas sugestões, nomeadamente,
no que se refere à sua própria saúde ou à
do seu bebê. Esta é uma boa altura para ignorara conselhos
inúteis e para aumentar o próprio discernimento quanto às
opiniões de interesse.
Mas não é raro que a grávida adolescente experimente
algumas sensações de ser especial e isso pode aliviar a
eventual depressão pela qual esteja passando. Quando a gravidez
se torna óbvia e irreversível, a mulher passa a ter um estatuto
que lhe confere alguns privilégios; caixas dos supermercados prioritárias
para grávidas ou de lugares reservados nos transportes públicos,
etc.
De acordo com a pesquisa Raquel Foresti, os depoimentos mostram que as
adolescentes que engravidam apresentam um ponto em comum: a fragilidade
no processo de formação de sua identidade. Algumas delas
não conseguiram criar vínculos com o mundo do trabalho e
tiveram vários empregos em um curto período de tempo. Outras
não enxergam perspectivas nos estudos.
Muitas vezes elas demonstram um comportamento mais infantil do que o esperado
para sua idade e não aceitam as responsabilidades. Por isso, sentem
que não encontram seu espaço no mundo, analisa a psicóloga.
Para
essas meninas, a gravidez tem uma dupla função. “Além
de servir como justificativa para a inadequação, a barriga
traz um certo poder e até status dentro da família. Preenche
o vazio que elas sentem por causa da crise de identidade”, afirma
Raquel.
fontes:
• boasaude.uol.com.br
• gballone.sites.uol
• Ministério da Saúde
• brasilescola.com
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